A ascensão feminina no trap, entrevista com Ebony

João Victor Pena
5 min readJul 4, 2019

No mês de abril eu lancei minha primeira matéria aqui no Medium, uma lista onde elencava 7 promessas do rap nacional tinham menos de 18 anos na época, além delas no final eu coloquei uma menção honrosa, Ebony, uma jovem de 18 anos que vinha se destacando muito no trap e que estava contrariando as estatísticas em uma cena onde poucas mulheres negras tem alcançado o devido reconhecimento. Hoje, trouxe ela para a gente bater um papo sobre sua carreira e alguns assuntos como reconhecimento de outros artistas, ascensão feminina no rap e etc. Confira:

No final do ano passado você gravou e lançou a sua primeira track. Quando começou o seu interesse por fazer rap? Você já havia tentado alguma coisa em outro estilo, ou essa está sendo sua primeira experiência na música?
Eu nunca tinha tido interesse por fazer rap, mas eu sempre gostei muito de música de forma geral e eu sinto que cada categoria de música expressa um sentimento diferente em mim e eu tava explorando o sentimento que o rap me traz, então eu escrevi a ‘CASH CASH’ e gravei.

Nesses últimos 6 meses você lançou várias músicas e ganhou uma notoriedade incrível, sendo reconhecida por grandes rappers e até fazendo shows. O que mudou na sua vida nesse meio tempo? Você já tinha um público bom nas redes sociais ou teve um boom de crescimento depois que as suas músicas começaram a ganhar muitas views?
A única coisa que muda são as pessoas que a gente tem contato, mas de uma forma geral pessoas continuam sendo pessoas, então é mais um círculo social diferente do que uma mudança de vida. Eu tinha um público bom no twitter quando meu vulgo era ‘Onika’, mas eu perdi essa conta e tive que fazer outra em setembro de 2018, aí eu perdi tudo, foi do zero. No instagram era normal, tinha 600 seguidores antes de fazer rap, então eu considero um boom mas mais de reconhecimento.

Em um meio que envolve tanto ego, é normal que existam muitas pessoas negativas e invejosas, que querem o seu lugar e o seu destaque. O hype que você ganhou no rap, te trouxe alguma experiência negativa?
Eu acho que nenhuma experiência é negativa se você não permitir que seja, eu aprendi muita coisa, mas quem sou eu pra definir se alguma coisa é negativa ou positiva pra mim?

Em fevereiro você anunciou que tinha entrado pro time da Blakkstar, você continua fazendo parte da produtora ou agora segue de forma independente?
Então, depois que eu fiz o episódio do Panda Show a gente entrou em uma fase de testes mas acabamos indo pra caminhos diferentes depois que ela acabou. Recentemente eu assinei com a Fresh Mind e tô lá agora.

Com uma estética muito parecida com o trap americano, com letras pesadas e fugindo do genérico, você tem se destacado muito em uma vertente do rap pouco explorada pelas mulheres no Brasil. Como se sente tendo se tornado a principal trapstar do Brasil em tão pouco tempo?
Eu gosto de ser a primeira mulher a fazer trap no Brasil, mas isso me assusta, porquê já era pra ter mais!

Nos últimos anos tem se discutido muito sobre a invisibilidade que artistas negros tem sofrido dentro do rap nacional em comparação com artistas brancos, um assunto que rappers como Raffa Moreira e Diomedes/Baco(em Sulicídio) bateram muito na tecla. Como você lida com isso, somado ainda ao fato de terem poucas mulheres fazendo sucesso e alcançando o reconhecimento verdadeiramente merecido na cena?
Lidar com isso é isso, tentar mudar mas entender que eu não movo a estrutura sozinha e 500 anos de escravidão não vão se refazer com meia dúzia de pessoas explicando, envolve uma luta muito maior que essa, que obviamente eu tento unir ao meu rap, a minha forma de me expressar, mas eu jamais vou deixar que isso seja a única coisa que eu tenho na minha cabeça, até porquê eu já teria ficado maluca.

Muitos artistas como Chris, Azzy e Aka Rasta tem dado um grande apoio ao seu trabalho e te ‘patrocinado’ como uma das grandes promessas do rap. Como você tem lidado com esse grande reconhecimento não só do público, mas também de outros rappers?
Eu adoro ver outros rappers que eu gosto ou nem conhecia vindo falar que meu trampo é foda, porque eu adoro a forma como a mente de artistas trabalha.

Há planos para algum projeto por agora, como um EP ou mixtape? Ou acha que ainda é cedo pra pensar nessa ideia?
Tem uma surpresa vindo dentro da Fresh Mind e eu tô pensando, to planejando, algo muito bom pro mês que vem, eu não posso falar ainda mas tá vindo.

Você ainda não nenhum feat oficialmente lançado, mas já tem algumas faixas muita aguardas vindo a caminho, como o recém gravado com o Klyn e a participação no EP da Azzy. Além dessas, quais outras colaborações os fãs da Ebony podem esperar nos próximos meses?
Pra mim a decisão de fazer feat ela sempre tem que ser muito bem pensada, por enquanto eu por exemplo, eu já fiz feats sim, não foram lançados ainda, mas foram com pessoas que eu gosto pessoalmente falando e não profissionalmente, que admiro artisticamente, mas que não eram trabalho, eram amigos e a gente fez porque era amigo. As colaborações que vocês podem esperar… qualquer pessoa que eu reconheça artisticamente falando e me mostre boa, pelo menos eu tô aberta a fazer feat.

Por fim, qual a mensagem que você deixa para o público/os MC’s que ainda não aceitam a ideia de ver minas dominando a cena?
Por fim, eu espero que lidem com isso, porquê eu não vou parar. Eu quero que todas as pessoas que alguma vez na vida sentiram que não eram suficiente saibam que elas tem um lar em mim, e gostaria de estar representando e aprendendo sempre com vocês. Sou muito grata por tudo o que tem acontecido comigo até agora!!!

Considerações finais

Caso você se interesse por trap e queira conferir mais conversas com pessoas do ramo, recomendo as minhas entrevistas com Santzu, Celo, Dudu e Nagalli. Para acompanhar a Ebony nas redes sociais é em @baddiebony, lá você ficará sabendo quais são seus próximos lançamentos e poderá acompanhar mais de sua rotina, . Para saber quando mais textos como esse serão publicados, basta me seguir @jvppena em todas as redes sociais. Agradeço a Ebony pela oportunidade da entrevista.

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João Victor Pena

Estudante de jornalismo. Ando meio perdido e escrevo umas matérias e entrevistas por aí.